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Vitória: uma ilha fortificada

Noticias (12/06/14)  

 Vitória: uma ilha fortificada

Luiz de Souza Porto Coêlho[1]

 A urbanização da Capitania do Espírito Santo está intimamente relacionada com fortificação para a defesa da capital em desenvolvimento. Já no início da ocupação, os colonizadores vindos de Portugal já haviam se atentado para a necessidade de uma barreira de proteção que impedisse possíveis invasões pela baía do Espírito Santo.

 Após as investidas do corsário inglês Thomas Cavendish (1592) e do corsário holandês Pieterszoon Piet Hein (1625) percebeu-se a necessidade de proteger a baía e em decorrência disso foram improvisadas as primeiras fortificações, construídas com paus e pedras.

 Com o descobrimento de diamantes e ouro em quantidade abundante no interior da capitania, a necessidade de proteção cresce ainda mais. No ano de 1702 foi construída a Fortaleza de São Francisco Xavier, no local onde antes havia sido construído o Forte de Piratininga. A execução desta obra foi feita pelo governador capitão-geral do Estado do Brasil, D. Rodrigo da Costa e sob a direção do Capitão-Mor Francisco Ribeiro.

 Um relatório do capitão-mor Dinonísio Carvalho de Abreu, datado de 1924, tratando sobre a importância estratégica do Espírito Santo como via de entrada para a região das Minas e pedindo providências cabíveis. O sistema defensivo de Vitória estava nas seguintes condições:

 - Fortaleza de São Francisco Xavier: em forma de círculo, situada na barra da Baía do Espírito Santo, possuindo nove peças de artilharia, sendo uma de calibre dezesseis e as restantes de calibre oito. Havia mais duas peças desmontadas e a murada estava bastante danificada;

 - Fortaleza de São João: em forma semi-sextavada irregular, situada em frente ao Pão-de-Açúcar (Penedo). Sua artilharia estava desmontada e compunha-se de seis peças de calibre doze e uma de calibre dezesseis;

 - Fortaleza de Nossa Senhora da Vitória: em forma semicircular. Situada no lugar superior ao monte onde estava o Forte de São João, com quatro peças de artilharia, todas desmontadas, sendo uma de calibre dezesseis, uma de calibre vinte e quatro e duas de calibre oito;

 - Fortaleza de São Tiago: em forma de semicírculo irregular, com pequena área, situada em uma praia da ilha de Vitória com três peças de artilharia de calibre oito, todas desmontadas;

 - Fortaleza de Nossa Senhora do Monte do Carmo: em forma de meia estrela regular, com cinco ângulos, situada na marinha da Vila de Vitória, com oito peças de artilharia calibre seis e oito, todas montadas em carretas, mais quatro de bronze e duas de ferro desmontadas;

 - Reduto Santo Inácio: de forma quadrangular, com três peças de artilharia calibre oito, todas desmontadas. (OLIVEIRA, 2008, p. 522-523)

 Como podemos perceber no relato, a ilha de Vitória contava com muitas fortificações, mas estas se encontravam em péssimo estado, pois a maioria havia sido abandonada e as peças de artilharia estavam desmontadas. Com o grande fluxo de ouro e diamantes da região das Minas, Dionísio Carvalho de Abreu alertou a governadoria-geral do Brasil para a necessidade de reformas que visassem a maior segurança da Baía do Espírito Santo.

 Segundo Basílio Daemon (2010, p. 205-206) em resposta a esse alerta feito pelo capitão-mor, a administração geral interveio na província do Espírito Santo da seguinte forma:

É mandado levantar neste ano [1726] pelo vice-rei do Estado, conde de Sabugosa, cinco fortalezas na baía desta capital, de que fora incumbido o engenheiro Nicolau de Abreu, sendo a primeira em frente ao Penedo, com o nome de Forte de São João, abaixo do antigo Forte de São João Dugam, nome talvez corrompido de Morgan, o capitão que atacou este fortim a mandado de Cavendish, em 1532; a segunda, com o nome de Forte de São Diogo, nos fundos da casa pertencente à viúva Siqueira, na quina da rua de São Diogo e ladeira do mesmo nome; a terceira à beira-mar, no local em que se acha a casa e trapiche do Sr. José Francisco Ribeiro, em frente à praça do Mercado, com o nome de Forte do Carmo; a quarta no local em que está um paredão, no largo do Rubim, ao lado de Palácio e da antiga ladeira do Trapiche, tendo o nome de São Tiago ou de Nossa Senhora da Vitória [...]; a quinta levantada sobre uma laje que existia à beira-mar, na quina das ruas do Comércio e General Osório, onde existem as casas dos herdeiros do finado coronel Gaspar Manoel Figueiroa, tendo esta fortaleza a denominação de Santo Inácio e em terrenos pertencentes então aos padres da Companhia de Jesus.

 Além das novas construções e reformas, o engenheiro Nicolau de Abreu reergueu todo o Forte de São Francisco Xavier que estava em ruínas e abandonado.

 Pouco sobrou dos fortes e fortificações de Vitória. De todos os fortes construídos, apenas dois continuam em pé: o forte de São Francisco Xavier, em Vila Velha e o Forte de São João. Nenhum deles está aberto à visitação. O forte de São Francisco Xavier está sob o domínio da Marinha do Brasil, como parte do 38° Batalhão de Infantaria de Vila Velha. O Forte de São João foi utilizado como cassino por um tempo, depois se tornou sede do Clube de Regatas do Saldanha da Gama. O Forte de São Diogo foi demolido e em se lugar foi construída uma escadaria com o mesmo nome. Os demais fortes foram demolidos, dando espaço à crescente urbanização de Vitória.

[1]Estagiário pesquisador do Instituto Goia.


 

                                                  Forte de São Francisco Xavier atualmente

                                                    

 Antigo Forte de São João na década de 1930, sede do Clube de Regatas Saldanha da Gama antes dos aterros da avenida Beira-Mar.

                                                       

 PLANTA DA VILLA DA VICTORIA, 1767.  Autor: José Antônio Caldas (atribuído). Fonte: Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa. Nos destaques estão o Forte de Nossa Senhora do Monte do Carmo em forma de meia estrela e o Reduto de Santo Inácio, que mais tarde ficou conhecido como o Porto dos Padres.

Foto da Antiga Ladeira de São Diogo no local onde havia um forte com o mesmo nome. Ano: 1920. Fonte: Arquivo Público Estadual o Espírito Santo.


Escadaria São Diogo, construída mesmo local em que ficava situado o Forte com o mesmo nome.



Referências

 

  • DAEMON, Basílio. Província do Espírito Santo: sua descoberta, história cronológica, sinopse e estatística. Vitória: Arquivo Público do Estado do Espírito Santo e Secretaria de Estado da Cultura, 2010.
  • OLIVEIRA, José Teixeira. História do Estado do Espírito Santo. 3. ed. Vitória: Arquivo Público do Estado do Espírito Santo e Secretaria de Estado da Cultura, 2008.

 

 




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